Dia 13132 // Qi // 29.10.20 // 08:32.
Às vezes eu só consigo explicar uma coisa direito usando uma metáfora, ou parábola ou seja lá o que for isso que eu vou fazer a seguir.
Houve um tempo em que as pessoas entravam na internet e, ao invés de visitar essas praças cheias de gente estranha, barulho e propaganda que são as redes sociais de hoje, iam direto na casa das pessoas que elas conheciam e/ou gostavam, os blogs.
Nessa época as pessoas que tinham alguma uma habilidade em alguma área específica e queriam torná-la pública, por qualquer motivo pessoal que fosse, tinham essa opção: Construir uma casa para suas ideias, palavras, desenhos, receitas etc. E elas podiam fazer ainda mais, podiam personalizar suas casas, de modo que estas também dissessem algo sobre seus donos/construtores, exatamente como fazemos com nossas casas no mundo real em que, desde a cor da parede até os objetos de decoração são uma declaração sobre quem nós somos e do que gostamos.
Afinal somos indivíduos, somos todos únicos, muito diferentes mesmo quando muito parecidos.
Então veio o Facebook, a primeira praça. E como era nova, limpa e moderna, saímos de nossas casas e fomos lá ver a novidade. Mas ela tinha uma regra nova: Para entrar você tinha que vestir um uniforme azul e branco. Houve um certo alvoroço na entrada, eu lembro, teve quem quisesse personalizar, demonstrar individualidade, mas não adiantou, em pouco tempo até os mais rebeldes estavam uniformizados, e a maioria das pessoas que foi só pra olhar jamais voltou pra casa.
Outras regras vieram depois e sutilmente as pessoas na praça começaram a ser educadas para se comportar exatamente como o dono da praça queria. Logo elas não tinham mais paciência para nada. "Álbum de fotos? Texto longo? Foi mal aí mas não tenho tempo pra isso não, tenho que rolar esse mural infinito cheio de nada aqui por horas a fio".
Com o tempo aquela praça ficou suja, barulhenta e superpovoada, então o dono construiu outra nova, uma mais elegante onde só pessoas já "educadas" e com boas câmeras eram bem vindas. E haviam novas regras também: Fotos? Só se fossem caprichadas e para garantir isso um pacote de filtros já era entregue logo na entrada.
E texto? Melhor não. Porque lá não era lugar de dizer coisas, só de mostrar. Mas também porque, como as pessoas que estavam ali já vinham pré-educadas da outra praça, elas já não queriam ler nada que tivesse mais de duas linhas. Então, assim como o dono tomou providência para garantir o nível das fotos, ele também o fez para garantir que palavras demais nem fossem vistas, escondendo-as.Foi nessa segunda praça que eu postei isso primeiro, e a quantidade de visualizações e curtidas que tive só provou que eu estava certo. Se eu quiser dizer alguma coisa por meio de palavras, é melhor eu voltar para casa.